quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Meu pedido de Natal para os assinantes da Folha de São Paulo

O Natal chegou, os motoristas estão alucinados, como se ao chegar o fim do ano fosse possível livrarem-se da vida que levam. Encontros e festas de confraternização pululam mais do que o DVD da Ivete Sangalo no Carnegie Hall. As lojas estão lotadas, os bares cheios, o mundo corporativo finge que um outro espírito baixou nas empresas. A Veja faz uma capa dizendo que o Papai Noel existe, e como símbolo da sociedade desejada pelo Civita, existe porque trouxe o mais novo brinquedinho da Apple, o iPad, para os brasileiros. Nada como o espírito natalino da Veja para acalantar as angústias do dia a dia. Compre um iPad e tudo está resolvido.

As eleições acabaram faz tempo. Dá um banzo... militância internética é maravilhoso, mas acho que todo mundo sentiu falta da miltância nas ruas. A Dilma foi diplomada, fez um discurso diplomático e agora aguardo ansiosamente a posse no dia 1º de Janeiro, com minha camiseta da Dilma, verás que um filho teu não foge à luta. Mas já que ninguém quer falar e ler sobre política, e sim sobre o Natal e as viagens que estamos planejando, vou fazer um pedido natalino, um  mimo que gostaria de receber.

Pensei nesse presente durante a campanha, quando inconformado com a cobertura da grande mídia, mas especialmente da Folha e sua postura de imparcialidade, mandei um e-mail para a ombudsman do Jornal sobre uma reportagem no seu sítio:

Boa noite, Suzana Singer.

Escrevo para ti, pois gostaria do esclarecimento de quatro perguntas:

1. A sra. não acha que o subtítulo da manchete do sítio da Folha:
2. A sra. não considera que isso é parcialidade na cobertura do jornal Folha de São Paulou sobre as eleições à presidente de 2010?

3. A sra. não considera que a reportagem da Folha ouviu apenas um lado da história, e que a reportagem publicada deveria ouvir todos os lados dessa mesma história, antes de qualquer publicação ligando a quebra do sigilo à pré-campanha do PT?

4. Apóas a nota de esclarecimento da PF, a sra. não considera que ela deveria ser publicada pelo sítio?

Aguardo a sua resposta.

Muito obrigado,

José Gabriel Labaki Tomaselli


Caro José,
1) sim,
2) não é parcialidade, mas erro jornalístico
3) sim
4) sem dúvida

Mais uma vez, escrevendo de forma apaixonada, os erros gramaticais passaram, mas acho que mesmo assim valeu. Nas várias trocas de e-mails que fiz durante a campanha - eu não tinha nem blog, nem facebook, nem twitter - comentei que a Folha tucanou a parcialidade, que virou erro jornalístico. Tinha achado minha "bala de prata" para a minha militância. Todos aqueles que se informavam exclusivamente pela mídia tradicional teriam que pelo menos admitir que essa mídia distorce e deturpa os fatos, fazendo o jogo de seus patrões e de suas ligações políticas. Pobre ilusão a minha, de nada adiantou. A relação que esses leitores e espectadores tem com a imprensa é a mesma do Demetrio Magnoli:




Mesmo ouvindo a argumentação do Kotscho, o Magnoli insiste na ideia que o jornalismo precisa de filtros e edições. São os jornalistas que tem a capacidade de decidir o que o leitor na Folha pode ou não ler. Este seria incapaz de discernir o que ele próprio deve ler. O maior problema dessa visão é quem estabelece esse filtro, os jornalistas ou o Otavinho. Ou o leitor da Folha acha que e Eliane "massa cheirosa" Cantanhêde é a pessoa mais indicada para fazer a edição das fontes? 

Mas eu tenho uma certeza, são raras as certezas que tenho, porém essa é uma delas. O leitor da Falha tem plena capacidade de, se um dia cometer uma folha, e sem querer cair num sítio chamado falhadesaopaulo, e der de frente com uma foto do Otavinho vestido de Darth Vader, o leitor da Folha vai saber que entrou em uma página humorística e que essa apenas utilizava do humor para mostrar a parcialidade do jornalismo da Folha, não dá mais pra ler.

A Folha, que sempre se colocou como defensora da liberdade de imprensa, além de tirar a Falha do ar, ainda exige uma pagamento de indenização em dinheiro de dois irmãos, um jornalista e outro designer. A história toda está aqui. A postura do jornal do Otavinho é absolutamente contraditória com o discurso que o jornal, cada vez  mais parecido com um jornaleco, tanto prega. Se o site já saiu de ar - ou seja, foi censurado - por que pedir uma indenização em dinheiro? Por uso indevido da marca? A Folha realmente pensa que seus leitores são seres ignorantes, incapazes de distinguir uma paródia de um jornal "sério"?

Portanto, o meu pedido é que os leitores do jornal escrevam para todos daquela redação, pedindo para que a Folha retire a ação judicial contra a Falha. Até os Repórteres sem Fronteiras já fizeram esse pedido. Nossa grande mídia ignora esses fatos graves - os mesmos defensores da liberdade de imprensa censuram esses acontecimentos, estabelecendos os filtros e as edições que apenas os jornalistas são capazes de fazer - e somente aqui na internet ocorrre a divulgação.

Leitores da Folha, pressionem a redação. Escrevam e-mails, peçam, reclamem. Insistam para que o Otavinho desista de uma ação judicial que busca a censura e o impedimento da livre circulação de ideias na internet.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Lagostas me perseguem

Finalmente atingimos o nível de desenvolvimento da Europa. Não que eu tenha esse sonho, mas se adotarmos como critério o preço da carne, já chegamos lá. Estamos no primeiro mundo. Uma peça de picanha está custando 70 reais. Músculo, que na minha infância era praticamente doado pelos açougueiros, etá custando 15 reais o quilo. E o ossobuco? Carne de terceira, mas que eu faço deliciosamente bem - modéstia à parte - está custando 10 reais o quilo.

Uma calamidade. Frango não dá para comer. É puro hormônio, matam o bichinho com 20 dias de vida e não tem gosto nenhum. Fui olhar o preço do frango caipira e adivinha? 18 reais o quilo. Bom, vamos para o porco. Comi uma costelinha com salada shopska para comemorar a vitória da Dilma, como sugeriu a Fátima Oliveira. Pois é, a costelinha está 10 contos. No meu desespero no supermercado fui olhar outras carnes.

Pato, 13 reais. Codorna, 17 reais. Pato e codorna mais baratos que os nossos bois. E temos 200 milhões de reses por aqui. Temos mais bois que gente, e os pobres dos patinhos e das codornas custam menos que a carne vermelha. Se formos para o mar então...

Me lembrei do Ro de Janeiro... que saudades... Minha amiga Rezinha me levou para o mercado São Pedro em Niterói, um exemplo de brasilianismo; logo na entrada uma estátua de São Pedro rodeada de velas e rezas. Um corredor que parece curto, barracas nas laterais com peixes e frutos do mar. Começando a olhar e a conversar com os vendedores, o curto corredor torna-se infindável, ficamos malucos. Camarão, mexilhão, lula e polvo. Os tradicionais. De repente, uma lagosta pequeninha. Lagostim. De maluco fiquei alucinado, gastei o que não podia, mas tirei a onça do bolso e levamos as lagostas de pequeno porte.

O mais maravilhoso do mercado é que "pescamos" tudo e vamos para o segundo andar. Lá, escolhemos o restaurante que prepara o que compramos na hora. E o melhor, podia fumar. Sentamos, pedimos uma cerveja, esperamos a comida ficar pronta, bebemos, fumei, conversamos, o de sempre ... ficamos felizes. O melhor era a vista a maravilhosa Baia de Guanabara. Tudo bem, estamos no Brasil, então, em primeiro plano o que vemos mesmo é uma estação de tratamento de esgoto. Mas se fizermos um esforço monstruoso e usarmos a visão do Aécio "Klark Kent" Neves conseguimos ver um pouco da beleza do Rio. 

O lagostim chega e como feito um faminto. A Re queria chorar, assim como eu. Que sabor inesquecível e, graças aos franceses que estavam com a gente, feito apenas com água e sal. Voltei lá mais duas vezes. Tem que ser muito caipira para ir ao Rio e ficar indo para Niterói, mas queria porque queria aquele sabor de novo. E não consegui.

Voltando aos dias de hoje, o Pão de Açúcar aqui perto de casa tem uma peixaria maravilhosa. A peixeira é uma mulher encantadora, a Ana. Além de indicar o peixe, ainda dá a receita de como fazer.  Os preços são do músculo da década de 90. Dois dias seguidos fui lá e lagostas estavam escancaradas na minha frente. O preço proibitivo, mas a vontade e as lembranças do Rio me tentaram... acabei não comprando, e nunca mais vi os bichinhos. A Ana me garante que vai ter de novo.

Na próxima vez que for ao Pão de Açúcar ficarei nuuma dúvida angustiante: lagosta ou picanha. Do jeito que o preço da carne anda, acho que vou matar minha vontade de lagosta. Ou então, vou continuar no porco!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O momento de amor da 105 FM

Em 2004 consegui o meu primeiro emprego fora de Campinas. Desde então, viajo semanalmente para cidades próximas de minha terrinha campineira. Já são seis anos de estrada. Nessa hora, de caminhos intermináveis, dirigindo sozinho às 6 horas da manhã, e voltando para casa na hora do almoço, a solidão torna-se insuportável. Existem centenas de carros e zilhões de caminhões, mas parece que você é a única pessoa do mundo.

O caminho para Bragança é pior ainda. Pista simples, 28 km com apenas dois pontos de ultrapassagem, todos os caminhões do mundo, radares de 60 por hora. O velho e bom rádio nos coloca de volta ao mundo real. Não basta levar um cd e ouvir música, preciso de alguém que esteja falando comigo. É a necessidade de saber que existem mais pessoas no mundo, que você não é o único ser humano, algo como o filme Eu sou a lenda.

Fico mudando de estação: CBN, BandNews, CBN, BandNews. De manhã a BandNews é muito melhor, tem até o repetequinho do Zé Simão, mas na hora do almoço a CBN é melhor. Mas indo para Bragança, as rádios de Campinas somem. Me restam duas, a 105 de São Paulo e a 102 de Bragança. Fico entre o pagode e o sertanejo, mas não importa, importa que alguém fale comigo. Até os sermões do padre Abério acalantam a solidão.

Hoje saí mais cedo e na volta fiquei ouvindo o momento de amor da 105. A maioria das pessoas tem dificuldade de demonstrar carinho e amor em público. Fazer declarações na rádio, sebendo que milhares de pessoas estão ouvindo, precisa de muita coragem. E emociona. Depois de levar uma multa, o momento do amor salvou o meu dia.

Só não foi melhor do que o comentário da Miriam Leitão na CBN, falta ousadia no ministério de Dilma. Fiquei realmente triste pela Miriam. Ela está muito decepcionada com os nomes escolhidos. A continuidade é grande demais. Talvez fosse melhor colocar no ministério os nomes indicados pelo Serra, ou pela grande mídia.

As declarações de amor na 105, e o lamento da Miriam na CBN. Não ganhei apenas o dia, ganhei a semana.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A prisão de Julian Assange

Depois de tanta repercussão, depois da "guerra cibernética", depois da queda do mastercard.com do ar, e depois do lixo da nossa mídia continuar afirmando que os documentos do Wikileaks não tem a menor importância, o que mais me incomoda nessa história toda é a hipocrisia. 

A liberdade só vale quando tem utilidade para o que "eu" penso. Todos esses hipócritas ficaram encantados quando a internet serviu para mostrar as manifestações contra o Ahmadinejad. O blog na Yoani Sanches é sinônimo de luta contra a repressão e a censura, um "ícone da liberdade", afinal, ela possibilita uma visão de Cuba de quem vive lá dentro e sofre com a falta de liberdade.

Nesses casos a internet serve. No caso do Wikileaks não. Então a Amazon tira o sítio do ar, e mais grave, o lixo do sistema financeiro elimina qualquer forma de doação ao mesmo. Tenta impedir o acesso à fonte. O grande problema é esse: a fonte. Antes da internet ficávamos entregues ao que a mídia determinava  que deveria ou não ser publicado. Agora, temos a fonte diretamente, disponível para qualquer pessoa com acesso à web.

A Suíça é o maior exemplo dessa hipocrisia. Aquele país, que vive de chocolate, relógios, canivetes e dinheiro sujo, sujo de verdade, mas sujo mesmo, mantém as contas de sonegadores do mundo inteiro. Os EUA fizeram um acordo com os bancos suíços, que na verdade, são os donos daquele Estado. Ao invés de acabar com o sigilo de mais de 2.000 estadunidenses com dinheiro sujo em terras helvéticas, o governo suíço prendeu o cineasta Roman Polanski.

Além do dinheiro do Maluf e de outros corruptos brasileiros e mundiais, o país dos Alpes, dos lagos, o país perfeito, segura o sigilo de traficantes de drogas, armas, órgãos humanos e pessoas. Segura o sigilo de esquemas de prostituição, de assassinatos, de extermínios. Mas, para os hipócritas, esses sigilos não representam um perigo para o mundo. 

Perigoso mesmo é o Assange. Estuprador por forçar duas mulheres a transar sem preservativo com ele. Qualquer um que conheça um pouquinho da luta do movimento feminista sabe que a relação sexual também pode se tornar uma relação de dominação de gênero. Não sei se foi o caso, mas com certeza a perseguição que Julian sofre não tem nada a ver com essa acusação.

Beleza, todo mundo sabe que ele é preseguido por mostrar a nudez do rei, a obviedade do que é a diplomacia araponga dos EUA, por colocar em xeque a mídia tradicional. Mas, além de uma prisão absurda, o que fica mesmo é a hipocrisia. E a conivência com ela.

Os conceitos de ética, liberdade, credibilidade, ficam tão nus quanto o rei.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sem tempo

Sem tempo. Que inferno querer botar as ideias aqui e não poder. Essa semana ainda espero conseguir voltar a escrever!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ronaldo e Adriano

Meu Deus, meu curingão está fadado à segunda divisão. Sou um fã incondicional do Fofucho, ou melhor, Ronalducho, ou melhor, Ronaldo fenômeno. De verdade, acho o cara gente boa, jogadorzaço, mas como bom bebedor de cerveja, sei que a barriga dele é igual a minha e a do Ricardo Kotscho. Barriga de cervejeiro.

Se o Adriano vier, é melhor procurar o treino do Corinthians nos bares de Higienópolis. Quem sabe eu não trombo com os dois no chuletão, que alguns ousam chamar de Skina Grill, lá em Santa Cecília. Vou chamar o Lula. Debateremos futebol, se a carne deve ser temperada só com sal ou não, se a herança foi bendita ou maldita, e se o futebol é ou não o ópio do povo.Tomara que o Zé Alencar vá também. Será o dia mais feliz da minha vida.

Aumentaremos nossas barrigas, seremos felizes, lavaremos a alma. E o Corinthians?

Ai meu Deus, eu não quero nem ver!

Revista Science dedica 6 páginas ao Brasil

Caramba, eu nunca achava que isso fosse possível. A pesquisa científica está bombando no Brasil faz tempo, o MCT e o MEC tem dinheiro e investem muito, mas seis páginas na Science é motivo de muito orgulho  E quem mudou a pesquisa no Brasil? O torneiro mecânico analfabeto. E a iniciativa privada continua resistindo a investir em pesquisa.

A reportagem traduzida para o português está aqui.

E a reportagem da Folha, não dá mais pra ler, está aqui.

A Science dá uma aula de jornalismo pro jornal do Otavinho.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Mais um vazamento do Wiki Leaks

O sítio Wiki Leaks aprontou mais uma. Vazou uma série de documentos da diplomacia norte-americana. Pudemos ler uma série de pastiches dos diplomatas dos nossos irmão do norte, mas lemos também a comprovação do apoio do governo Obama ao golpe em Honduras, a descoberta do Nelson X9 Jobim, e a manutenção da diplomacia de Bush... a Hilary Clinton pediu para que seus diplomatas espionassem as chancelarias dos países pelos embaixadores americanos.

A quantidade de informações é impressionante, mas mais impressionante foi ver os jornalistas brasileiros afirmando que nada de novo foi esclarecido, que tudo o que foi revelado já era de conhecimento do todos. Honduras, Jobim e espionagem já eram de conhecimento público? Não existe nenhum problema o ministro da defesa passar informações para o embaixador americano? Dilma, demite esse X9.

Mas, para delírio da Judith Brito, está comprovado que o Itamaraty é anti-americano. Pronto, se o  embaixador Sobel falou, é verdade. Os documentos são uma lavada de alma para os oposicionistas, pois agora temos a prova que o Celso Amorim é um dinossauro da década de 60, com sentimentos anti-imperialistas da Guerra Fria.

Que saudades do Lincoln Gordon, o embaixador dos EUA no Brasil, que articulou com a CIA o golpe de 64. Só para lembrar de umas dos estadunidenses aqui na América Latina, podemos ficar com o Canal do Panamá, com a emenda Platt em Cuba, com as várias invasões militares no Caribe, o apoio aos golpes a às ditaduras militares, o bombardeio por caças americanos ao palácio La Moneda no Chile. 

Sempre que a grande mídia fala em política externa, o tom é de alinhamento incondicional com os Estados Unidos. Ainda cobrem a nossa chancelaria como se o que "é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Nunca foi e nunca será. A América Latina quebrou na década de 80 com o ajuste do Paulo Volcker. Quebrou na década de 90 aplicando a política neoliberal da escola de Chicago, e quebraria novamente se não tivéssemos rompido com essa lógica e diversificado as nossas relações internacionais.

As críticas a Celso Amorim sempre são baseadas em três pontos: a estigmatização de um política externa ousada, "ativa e altiva", como se essa posição de altivez pudesse ser tomada apenas pelos ídolos da grande mídia margarida. Nós, reles paiseco do hemisfério sul não temos esse direito. Exercemos um papel que não nos cabe, esse fica apenas para os que tem um destino manifesto.

O segundo ponto é o não-alinhamento com os Estados Unidos, uma política independente, que busca a ampliação de relações e parcerias com outras nações. Que se aproxima de países como Gana,e negocia com a Bolívia, ao invés de invadir militarmente nosso vizinho, como pedido por muitos na crise da Petrobras. Na visão dos críticos essas ações são fúteis, inocentes, o Brasil é uma criança querendo ser gente grande. Para que abrir uma universidade em Gana? Para que estreitar laços com o continente africano? Para que devemos fortalecer a união com a América Latina? Não, isso é bobagem, devemos nos aproximar dos EUA. Tirar os sapatos para os mais desenvolvidos.

O terceiro é a aproximação com países ditatoriais. Afinal, os países desenvolvidos mantêm relações apenas com países democráticos, como a Arábia Saudita, o Egito, Honduras depois do golpe, a Líbia do Kadafi, a fina flor do respeito à democracia e aos direitos humanos. É impossível fazer diplomacia escolhendo os países do bem, e excluindo os países do mal. É mais uma simplificação, mais um maniqueísmo, que virou verdade absoluta para uma parcela dos brasileiros e para a mídia de modo geral. Para variar a exceção é a Carta Capital.

Quem prejudica mais o mundo, o projeto nuclear iraniano - que é unânime no Irã, até para a oposição - , ou  o dinheiro sujo lavado na Suíça? Lembra dos 400 milhões do Maluf? Saíram do Brasil como? Todo mundo admira a Suíça, certo? Mas temos sempre que lembrar que a Suíça é a responsável pela circulação do dinheiro que mata, corrompe e escraviza no mundo inteiro. Vamos cortar relações com a Suíça?

Se acompanhamos a cobertura midiática sobre o Itamaraty, fica estranho entender como o Celso Amorim pode ser tão reconhecido justamente nos Estados Unidos. No ano passado ele foi eleito o diplomata do ano pela revista norte-americana Foreign Policy. Esse ano foi escolhido como o sexto maior pensador global pela mesma revista, ou seja, a sexta pessoa no mundo que pode, por meio das ideias e de ações influenciar o mundo. Como pode ser Celso Amorim tão menosprezado internamente?

Talvez a resposta tenha sido dada pelo Leandro Fortes. Talvez esteja com o outro Celso, o Lafer, chanceler do FHC. Nosso ministro das relações exteriores aceitou retirar os sapatos para entrar nos Estados Unidos em 2002. Um ato de humilhação para um chanceler brasileiro. E essa política externa era elogiada.

Um tira o sapato. O outro é o chanceler do ano, o sexto maior pensador global.