quinta-feira, 19 de maio de 2011

O sujeito não consegue dirigir um automóvel se não tiver noções de física

A frase do título não é minha, é do Alexandre Garcia. Preciso entregar a minha carteira de motorista e vender meu carro, pois a única coisa que sei de física é que F=ma. Juro que não calculo qual a força que tenho que usar para frear o carro, ainda mais tendo que saber a massa do veículo e fazer a conta da desaceleração necessária para não bater no caminhão que está a extamente 22,7 metros de distância, metros calculados apenas pela minha visão. Ainda mais se é para desacelar, então o sinal vai inverter, ficar negativo, não posso esquecer de, naquele milionésimo de segundo que tenho que frear o carro, inverter o sinal da equação. Melhor entregar minha carta. 

Bom, como eu sei que a distância é calculada pelo sorvete, isso é S = So + vt (ou qualquer coisa parecida com isso), talvez eu possa, depois de voltar para as aulas de física, ficar com a carta.

O apresentador de Espaço Aberto é um jornalista experiente, com noções de física e profundo conhecedor da língua portuguesa. Talvez mais que Reinaldo Azevedo. Tanto Alexandre, quanto Reinaldo, são símbolos do conservadorismo brasileiro, representantes na mídia do ideário elitista que busca a segregação de nossa sociedade entre uma elite - seja ela qual for, contanto que seja elite - e o resto. Nada de novo.

Minha perplexidade vem da postura do Cristovam Buarque com relação ao livro maldito e suas posições sobre a educação brasileira. Uma visão simplista que propõe uma solução fácil para questão tão complexa. E o senador foi ministro da educação de Lula. Não entendeu nada.

Além de vigiar o português correto, o senador pelo PDT ainda defende que se a educação básica é ruim, o ensino médio cai de qualidade e o ensino superior sofre a mesma queda. Como o Brasil não prioriza a educação, prefere priorizar estádios para a copa, a única solução é federalizar o ensino fundamental. Qualquer outra medida significa que o investimento e as prioridades estão sendo feitas na direção errada. Se o governo não tiver noções de física, sai de baixo, ou da frente.

O que mais incomoda é essa visão que eu sei, eu conheço e o que for diferente do que sei e conheço está errado. Federalizar o ensino é uma ótima proposta, basta a aceitação dos 5.550 prefeito brasileiros, dos 27 governadores, uma mudança na constituição que envolveria a aprovação de mais de 300 deputados e 54 senadores, todos eleitos pelos seus repectivos estados e representantes dos municípios de sua origem, e ainda a transferência do imposto gasto pelos municípios em educação para a União. Coisa fácil de fazer, e se não fizer, está errado! Simples assim.

Estou bastante cansado do lugar-comum: a falta de solução para a educação. Sempre que se fala em grandes saltos educacionais, fala-se nas reformas de Sarmiento na Argentina do século XIX, e na Coreia do Sul do século XX. Pois bem, Sarmiento era um liberal que acreditava que civilizar a Argentina era povoar o sertão com brancos, um projeto de branqueamento. Um ótimo exemplo de educação para nós brasileiros. A Coreia do Sul, além de ter dado seu grande salto educacional sob uma ditadura, tem um sistema pedagógico extremamente autoritário e repressor que nem o mais moralista dos brasileiros o aceitaria. E ainda forma uma bando de cordeiros para o trabalho e uma elite para ser a classe dirigente do país. 

Não é o que devemos buscar. Nem Coreia, nem Argentina, nem Cristovam Buarque. A educação tem solução sim, e estamos solucionando nossos problemas. Não podemos imaginar que o governo federal é capaz de impor sua visão sobre a educação a todos os estados e municípios. Foi por isso que o atual senador durou tão pouco no MEC, achou que sua visão de educação poderia prevalecer sem fazer política.  

Diante de tão nobre projeto, por que ouvir os bárbaros do interior? Para que fazer política, negociar, conceder, exigir, se a minha verdade é melhor que a sua? Política? Política é suja, é imoral, é fisiológica, é corrupta. Melhor pegar meu estandarte e sair por aí, cheio de moral. Cristovam Buarque assumiu a bandeira da educação, da mesma forma que Marina Silva assumiu a bandeira do crescimento sustentável. Ambos não tem nada a apresentar a não ser um projeto único, uma verdade absoluta.

Da mesma forma não podemos aceitar que a mídia possa decidir o que é correto para o ensino no país. Nesse momento de debate sobre a educação, o que sobra para o jornalismo brasileiro é o riso daqueles que pensam, diante de tamanha ignorância.

A campanha midiática do caos educacional tem um objetivo claro de obscurecer questões ideológicas, políticas e de projeto para a educação brasileira. Ao propalar a "falta de solução" busca-se manter a educação do jeito que está. Não tem solução, privatiza-se. Ou levanta a bandeira para um projeto absolutamente irrealizável. Nesse caso, o de Cristovam Buarque, nem Eduardo Galeano resolve: "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". 

Fernando Haddad continua buscando a utopia. A educação brasileira continua caminhando. A verdade absoluta de alguns, seja da mídia tradicional, seja do estandarte das certezas incontestáveis, não pode atrapalhar essa caminhada.

Um comentário:

  1. A média, em particular a impressa, tem se caracterizado pela tentativa desesperada de criar algum "fundamentalismo" sim. Não sei se com ou sem juízo, se perderam o medo do perigo, sei lá!
    Outro dia Clóvis Róssi ( diacríticos forçados) escreveu sobre a questão "os livro" como o mais tapado dos pequenos burgueses ( também não gosto, mas prefiro à "classe média") se não o fosse.

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